Desautorizar o Sofrimento

01/10/2007 03h00

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, setembro de 2007 - ano 1 - número 6

”Os sentimentos mentem.” Assim falava Jacques Lacan provocativamente, acrescentando que o único sentimento verdadeiro seria a angústia, dado que, não sendo expressável em palavras, não poderia mentir.

Tomemos dessa boutade seu aspecto pragmático: há no humano uma distância entre o que ele sente e o que expressa. Por exemplo, no amor: nenhuma declaração de amor é convincente, por mais que se esforce o apaixonado.

Não há como apagar a dúvida que insiste a não ser relançando a declaração. Por isso é tão claro o verso de Drummond: “Ouvindo-te dizer: Eu te amo,/ creio, no momento, que sou amado./ No momento anterior/ e no seguinte,/ como sabê-lo?” A sociedade, em decorrência dessa distância difícil a suportar entre o afeto e a sua expressão, gera, para acalmar, formas padronizadas de sentir tanto a alegria quanto o sofrimento. Assim, ir a Paris é ótimo, ir ao dentista é um horror.

Isso ganha especial importância no campo da saúde, no qual se costuma afirmar que não há nada pior do que não saber o que se tem. Não é rara a alegria paradoxal de alguém que finalmente fica sabendo que só tem um “tumorzinho”. Essa necessidade de se acalmar em uma forma padronizada de sentir pode trazer sérios problemas. Na medicina de hoje – diferentemente da de antes, em que primeiro se sofria, depois se ia ao médico –, doenças são anunciadas antes de qualquer sensação. É o caso de exames genéticos que prevêem com muitos anos de antecedência algumas paralisias graves. Como reage o paciente diante dessa informação igualmente desagradável e estranha? Ele busca alguma forma adequada de expressar o que supostamente tem, para os outros e para si próprio. É aí que acaba se alienando em um sentimento prêt-à-porter, pronto para vestir.

Quem vai ter um comprometimento das pernas começa imediatamente a claudicar e corta de sua vida tudo o que demanda movimento. Dessa forma, acaba por aumentar a dor imediata e facilitar a velocidade de instalação da doença. Uma pesquisa clínica psicanalítica que estamos desenvolvendo no Centro de Estudos do Genoma Humano, na USP (Universidade de São Paulo), tem demonstrado a importância, nesses casos, de desautorizar o sofrimento – foi como batizamos –, a saber: evitar que a pessoa se acomode em expressões programadas de dor. Isso não se consegue sem que se enfrente o risco da incerteza, coisa que dificilmente alguém fará se o tratamento que lhe for dado congelá-lo em uma situação sem saída, confortado pela discutível compaixão.

Os exemplos são extrapoláveis para a vida de todo mundo: não há quem não prefira o conforto da dor conhecida à insegurança de novas formas de ser. Cuidado! Ou cada um se faz responsável por sua singularidade, mesmo que esquisita, ou vira genérico, substituível, descartável. É uma questão de escolha.