/A legitimidade do inconsciente

Entrevista de Jorge Forbes para a Coleção Guias da Psicanálise – Vol.2: Freud (dezembro 2012)

O pensamento freudiano no Brasil

– O que restou da psicanálise freudiana nos dias atuais?

Restou a essência da descoberta de Freud, o que o faz eterno. Restou a   legitimidade do inconsciente, ou seja, que não há possibilidade de   controle racional completo de nossas ações, que uma dose de aposta está   presente em qualquer decisão, enfim, que a vida é contrato de risco,   marcada pelo desejo.

 – Quais os reflexos e influências dela no Brasil?

O brasileiro é alguém que ama o inconsciente, que sabe – quase intuitivamente – que as ações humanas não cabem em protocolos prêt-à-porter. Uma das expressões dessa intuição é o muito criticado “jeitinho brasileiro”, hoje exaltado por pessoas como De Masi, que vê nessa qualidade brasileira um especial saber fazer com o inconsciente. No Brasil, a razão sensível ganha da razão asséptica, motivo pelo qual entendo que o nosso país está em momento de contribuir fundamentalmente para a psicanálise do século XXI. E isto já se verifica.

 – A que ponto Freud influenciou a maneira de pensar ocidental?

Freud influenciou a maneira de pensar ocidental, a ponto de o elegermos um dos pais da razão, sintetizado na expressão: “Freud explica”.

 – Por que sempre existiu e existe ainda hoje uma grande resistência à psicanálise?

A resistência não é bem à psicanálise, que, reconheçamos, é bem menos conhecida do   que aquilo que dela se propaga. A resistência é ao que a psicanálise trata e legitima: o   desejo, o amor, o gozo, a ambição, o ódio, enfim, as paixões humanas que assustam   uma  vasta maioria de pessoas que nelas veem um risco para suas tranquilidades acomodadas.

– Qual a diferença entre psicanálise e as outras formas de terapia e em quais casos ela é recomendada?

Não há contra indicações para a psicanálise, ela é sempre bem indicada para as pessoas que se embrulham com o seu gozo singular, com o que popularmente chamamos de “mais forte que eu”. E são muitas as pessoas nessa situação. A diferença entre a psicanálise e as outras terapias é grande. Ela, a psicanálise, é o avesso das outras, como explicou Jacques Lacan. Avesso no sentido de que enquanto todas as terapias, de algum modo, acabam por oferecer um padrão de comportamento bom e justo, a psicanálise defende uma ética da responsabilidade frente à resposta inventiva e singular de cada um.

– Por que Freud abandonou a hipnose como ferramenta terapêutica?

A hipnose deixava a ideia de que haveria um passado a ser reconquistado, para o que ela – a hipnose – seria um facilitador. Ora, o que Freud logo se deu conta é que o que importa no tratamento não é o efetivo passado que passou, mas o passado que inventamos hoje, para justificar as dificuldades de nosso presente.

– Por que as teorias freudianas têm como foco principal a sexualidade?

Porque o domínio da sexualidade é o que melhor expressa as paixões humanas anteriormente referidas. Porque aí, fica evidente para qualquer pessoa, que nenhum protocolo resolve os impasses, pois não há modelo universal da forma justa de amar. Porque é na sexualidade que a pessoa se surpreende com o que não sabe, com o inconsciente.

– As teorias sobre a sexualidade ainda funcionam atualmente, já que temos relativamente mais liberdade sexual?

A questão da sexualidade não se resolve com mais liberdade sexual. Ter mais liberdade sexual, ao contrário, só evidencia e multiplica os tropeços nessa área. Há quem seja saudoso do tempo da maior repressão da prática sexual, quando podia por a responsabilidade de suas dificuldades exatamente na repressão.

– Qual a ligação entre o meio externo e o inconsciente? Qual deles influencia mais na vida de uma pessoa?

Essa divisão cartesiana entre o fora e o dentro, meio externo e inconsciente, não é válida para a psicanálise. A psicanálise se orienta por uma topologia diríamos pós-moderna, que quebra a diferença do fora e do dentro, na qual o mais íntimo de mim mesmo eu o vivo no encontro com a outra pessoa. Dois modelos topológicos dessa nova espacialidade são a garrafa de Klein e a banda de Moebius.

– O que Freud diria dos atuais tratamentos com medicamentos, que partem do princípio que alguns tormentos da alma são químicos e hormonais?

Freud aplaudiria as boas indicações medicamentosas, conforme a ética médica, e sorriria frente a ingênua explicação de que eles seriam cura para os tormentos da alma.

– A psicanálise pode ser considerada uma filosofia?

Muitos querem considerar a psicanálise como uma filosofia. Há nisso uma dificuldade essencial, uma vez que a psicanálise não estabelece uma visão do mundo universal, ela não se propõe como um guia de melhor viver. A psicanálise não é uma síntese, motivo pelo qual Freud assim a chamou, Psicanálise, e não psicossíntese.


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