Ser Analista

01/01/1991 02h00

Em 1990, Bento Prado Jr. e Jorge Forbes coordenavam os estudos de Psicanálise e conexões, no Instituto de Estudos Avançadas da USP. Realizaram um Colóquio para confrontar as diversas orientações psicanalíticas em São Paulo, a partir do tema: “Psicanálise: identidade e diferenças”. O texto aqui publicado é o que Jorge Forbes apresentou naquele Colóquio, cinco anos antes da fundação da Escola Brasileira de Psicanálise.

EPÍLOGO INÚTIL

A pergunta em subtítulo deste colóquio: “O que é ser psicanalista”, me cheira àquelas do tipo o que é ser paulista, o que é ser mineiro, etc. Normalmente a resposta é um decálogo que enfeita os cardápios dessas cidades.
Aceitemos a provocação:
Ser analista:

  1. É valer mais quando não se é que quando se é.
  2. É emprestar palavra, corpo e ser para ser feito do que se quiser.
  3. É amar incondicionalmente, sem qualquer reciprocidade, na paixão da ignorância.
  4. É chegar sem ser avisado, no lugar da surpresa ou da assombração.
  5. É passar por esquisito, mal educado, chato, sem poder justificar.
  6. É, trabalhando o bem, vir a ter horror do seu ato.
  7. É poder ser paciente no lugar do Outro.
  8. É não governar, nem educar.
  9. É saber o que faz, quando não sabe o que diz.
  10. É ter saudade sem reivindicar, quando se chega ao fim.

Nosso colóquio, vide nota introdutória, nos convida a refletir sobre o tema Psicanálise: identidade e diferenças – o que é ser analista.
Os que exercem a psicanálise, normalmente duvidam, ou abrandam, ou temem uma definição positiva do que é ser psicanalista. Não fica bem afirmar : “Eu sou um psicanalista”. Os analistas de modo geral são modestos em se autodefinirem psicanalistas, entretanto não titubeiam em afirmar que o outro, seu colega, não o é. Estranho paradoxo: nunca se sabe se é, no entanto sabe-se que o outro não é.
As críticas são tão freqüentes que levam a uma esperança de se definir, ao menos, o que autoriza alguém a dizer que o outro não é um analista. Normalmente, o que sustenta essas críticas são as mais variadas razões que não têm nada a ver com a psicanálise. Talvez diversos motivos de difamação são possíveis por falta de uma teoria positiva, argumentada psicanaliticamente, do ser psicanalista.
Uma curiosidade salta aos olhos – os que exercem a psicanálise, e que não cessam de se intercriticar, criticam-se sempre uns aos outros, dentro de um círculo fechado e repetitivo. Há um certo saber espontâneo, compartido, dos que são criticáveis e dos que nem valem a pena ser.
Ora, por que os que trabalham com a psicanálise conseguem criticar-se “entre si”? Podemos supor que há um si essencial, que possibilita às críticas delimitarem um conjunto. Temos o conjunto peculiar dos que se inter-acusam: “Você não é analista”. Importa tentar uma explicitação da essência desse si, que orienta o “entre-si”, que permite estarmos entre nós, embora tão diferentes.
Há um artigo dos anos 30, de Edward Glover, citado por Lacan em “Variantes do tratamento padrão”, que é exemplar e ainda atual. Glover resolve verificar em sua sociedade, a britânica de psicanálise, quais os “Critérios terapêuticos da análise”- título do artigo. Para saber no que os analistas dessa sociedade concordam entre si, manda a cada um dos 29 membros-praticantes um exaustivo questionário de sessenta e três perguntas relativas às práticas técnicas reais e às normas de trabalho aplicadas. Obteve respostas completas de vinte e quatro dentre os vinte e nove consultados. “Do exame das quais, transpirou (sic) que não havia concordância completa senão sobre seis dos sessenta e três pontos levantados. Só um desses seis pontos podia ser considerado como fundamental, a saber: a necessidade de analisar a transferência; os outros se referiam a matérias tão secundárias como a inoportunidade de aceitar presentes, a rejeição do uso de termos técnicos na análise, a recusa de contatos sociais, a abstenção de responder às perguntas, a objeção de princípio às condições prévias, e, de modo bem interessante, o pagamento de todas as sessões em que não se compareceu à entrevista”.
Concluiu-se que o que unia os analistas era uma cartilha, um manual do que se devia ou não fazer para merecer a etiqueta de psicanálise.
A questão sobrevive e hoje ainda nos reunimos aqui, debruçados sobre ela. O que é mesmo ser analista?
Proponho um ponto em comum: todos nós trabalhamos com o inconsciente. Permitam-me defini-lo com Lacan, a partir de Freud, que o inconsciente é um “saber que não sabe de si”. O saber que sabe de si é um saber consciente, sobre o qual se tem consciência. O saber que não sabe de si é um saber inconsciente, um saber semelhante ao da ciência com uma fundamental diferença : é um saber subjetivado.
Quando digo que o inconsciente é um saber que não sabe de si, o termo saber faz referência à uma organização das palavras que se verifica por exemplo quando alguém realiza uma associação livre. O saber que daí se desprende não objetiva o sujeito, pois se o fizesse não haveria necessidade do analista. Não se interpreta um saber que sabe de si, o consciente, mas o que não sabe de si, o inconsciente. O analista é o elemento que por um tempo faz a ligação entre o saber que não sabe de si, da associação livre, e o analisando. A distância entre esse saber e o analisando, vou chamar, a partir de Lacan, de Real.
Quais os caminhos, quais as conseqüências, que esse saber que não sabe de si, que uma prática desse saber, que uma prática do inconsciente, podem tomar em relação ao Real?
Divido-o em três: científico, religioso e psicanalítico.

a) Científico: O modelo maior do saber científico é o saber matemático. Para que serve um teorema? Não é uma questão que deva ser posta a um matemático. A justificativa de aplicação de um saber científico não é científica. O saber científico é um saber que caminha ad infinitum. É diferente do psicanalítico que é ad finitum. A análise é infinita na possibilidade de saber, mas finita na exigência da escolha do ponto do basta subjetivo.
São clássicas as questões quanto à responsabilidade social do cientista. Santos Dumont é responsável pelos aviões que bombardeiam e matam? Oppenheimer é responsável pelas catástrofes atômicas? O saber científico, por ser pura fórmula articulada, exclui o sujeito.
Será que poderia servir de modelo ao psicanalista? Difícil, muito difícil. Não acredito na possibilidade do analista científico, pela razão já dita que a ciência, ao excluir o sujeito em suas formulações, se incompatibiliza com os objetivos analíticos.
Quando é tentada a utilização do modelo científico pelo psicanalista, temos como resultado a produção do cínico, ridicularizador de qualquer lei, ou moral, sustentado em suposta certeza de uma natureza verdadeira e última. São os que, baseados em ser o inconsciente sempre “outra coisa”, transformam-se em críticos contumazes de qualquer iniciativa comum. São os que fazem a crítica pela crítica, os incapazes de qualquer criação, os desprovidos de talento.

b) Religioso: a religião é a prática que tem a capacidade de ligar o saber que não sabe de si e o sujeito, através de um elemento terceiro que realiza a conexão. Podem se prestar a este papel, uma pessoa, uma teoria ou uma instituição.
É nesse ítem que entendo que mais se agrupam as diferenças deslocadas entre os analistas, o velamento de sua “real” identidade.

b.1) os velamentos de pessoa – seriam as tentativas de se dizer psicanalista por ter convivido, se analisado, estudado, discutido, visitado, namorado, brigado, supervisionado, etc, etc, com tal ou qual eminência psicanalítica. Tudo isso pode ser muito importante mas nenhum desses eventos configura critérios radicais de iscernimento.

b.2) os velamentos teóricos – aqui alinharia o uso da teoria não como
instrumento em referência a uma clínica mas como um fim em si.
Há para quem ser freudiano, kleiniano, bioniano, lacaniano é um fim em si. Não importa, para esses, o efeito de seu trabalho; o que buscam é que seu fazer se coadune com a idéia que têm do que seria catalogável numa dessas filas, ou correntes. Realizam a imaginarização da teoria seguindo mais as leis do mercado que a eficácia terapêutica. Como no samba, vestem uma camisa listada de uma escola e saem por aí se esquecendo que tudo acaba na quarta-feira, normalmente cinza, para os analisandos.

b.3) os velamentos institucionais – com muita reqüência nas instituições psicanalíticas se escamoteiam as contradições internas e a política partidária ocupa o espaço do analítico. SAMCDA – Sociedade de Ajuda Mútua Contra o Discurso Analítico – foi a sigla criada por Lacan para alertar aos perigos dos pactos de significação que insistem em domar o mal entendido do real do inconsciente, que faz, nessas instituições, seu retorno em sintoma. Devem aqui também ser lembrados aqueles que sustentam sua prática psicanalítica a partir de formações em instituições não analíticas, comumente as faculdades. Nesses casos é o fato de ser médico, psicólogo, filósofo, ou o que mais seja, o que sustenta o exercício clínico.

Passo, agora, à mais árdua reflexão: à prática psicanalítica de tratamento do real do inconsciente.

c) Psicanalítico – finalmente o caminho psicanalítico. Este tem se misturado aos dois anteriores, sempre, a meu ver, por uma deficiência de uma teoria positiva da interpretação e do final da análise, em especial desta última. Afinal, penso que estaríamos de acordo em dizer que ser analista é saber conduzir uma análise do começo ao fim. Sobre o começo muito mais se fala que sobre o fim. Convenhamos que pululam as interrupções de análise e não os fins. Interrompe-se pelas mais variadas razões: cansaço, resolução de um sintoma circunstancial, falta de dinheiro, de tempo, por mudança de cidade, por casamento, também por desquite, para mudar para um analista melhor - os tidos como didatas - por não ter mais nada a falar, por ter virado amigo, ou inimigo, por aliança institucional; critérios em nada psicanalíticos.
Digamos que o final da análise tem a ver com se habituar ao real do inconsciente. Um real silencioso da palavra que falta para juntar o saber que se articula, livremente, sem saber de si, e o sujeito ávido de respostas que lhe minorem o sofrimento. Sim, pois quem procura uma análise sofre, é bom lembrar. Não devemos confundir preocupações humanistas com soluções humanistas. A psicanálise não é uma solução humanista para o mal estar do homem, embora se ocupe dele. Não confundamos a água do banho com a criança. Se a psicanálise não se preocupa com o sofrimento do homem no mal estar da civilização vai então se preocupar com o quê ?
O hábito ao real do inconsciente pode ser detectado na forma que cada um trabalha com o dizer. Nosso desenvolvimento anterior leva a defender a idéia que o cientista se sustenta num dizer sem sujeito, que sempre pode dizer mais um pouco, numa nova articulação.
Se entendemos ato como uma ação que marca um antes e um depois, e cujo saber lhe é posterior, vemos que é o que não existe na ciência. Como diz o próprio nome, consciência do saber é ali condição de todo agir. Na ciência “clássica” não opera o acaso nem a surpresa.
Na psicanálise há o momento do ato. Há um basta ao dizer infinito da associação livre; há uma escolha forçada. Chega um momento de dizer: “é isso”, ou: “eu quero!” No ato não há a garantia do saber anterior que justifica a ação, como na ciência, por isso todo ato é arriscado e é da ordem da aposta, é um bem dizer.
Na religião há o ato, como na psicanálise, porém o risco está abrandado por ser um ato de fé. Eu não sei, mas alguém sabe e zela por mim. Não é um bem dizer mas é o dizer de um bem.
Como discernir o momento, o bom momento do fim da análise onde o analisando dá prova da sustentação do inconsciente sem responder a esse Real, com a loucura ou a morte? Este é um tema que tem me ocupado: a relação da ciência com a loucura e a da religião com a morte.
O final da análise é um momento justo, nem um antes, nem um depois. É um momento criacionista, como o oleiro que constrói um vaso em torno ao vazio. Ele faz uma obra em torno do nada. A ciência não faz obra, a religião a escamoteia.
Lacan alertou exaustivamente para o problema da indefinição do final de análise. Propôs a apreensão deste momento, numa estrutura chamada passe. Uma forma de poder saber o que acontece, nessa passagem que o analisando faz quando não mais espera a decisão do amanhã e o futuro não é mais adiado, não sendo mais uma isca para o presente mas uma conseqüência do hoje.
Poderá a teoria do passe triunfar onde as tentativas anteriores, na história da psicanálise, fracassaram? Ainda há que se ver.
Certo é que a dificuldade da definição de nossa prática está ligada a seu próprio objeto. Se há o analista, uma identidade – o analista não é nenhum de nós. Nós somos as diferenças dessa identidade impossível – em termos lógicos. Esse que com sua escuta modula o justo tempo do argumento, que liga o saber inconsciente e o analisando que o professa. Posição douta, de uma douta ignorância que deve ser apresentada ao analisando para que este possa fazer de um tratamento um ato criativo e renovador.
Podemos dizer que há “o analista” e que há “a psicanálise”.
Uma revisão e um avanço da teoria da interpretação, o fazer do psicanalista, e do final da análise, a conseqüência de qualquer tratamento, devem contribuir para que os psicanalistas melhor suportem a psicanálise, e a eles mesmos.

São Paulo, 1990